25/10/2013

# Bertrand Brasil # distopia

Hillary Jordan - Quando ela acordou - Bertrand Brasil


Leituras de Carol nº 753

Título original: When she woke

“Quando ela acordou, estava Vermelha. Não ruborizada, não queimada de sol, mas com o sólido e afirmativo vermelho de um sinal de trânsito. Viu primeiro as mãos. Manteve-as altas, na frente dos olhos e envesgou-os para cima, a fim de observá-las. Por alguns segundos, sombreadas pelos cílios e iluminadas por trás, pela forte luz branca que emanava do teto, pareciam pretas. Depois, seus olhos se ajustaram e a ilusão se desfez. Examinou os dorsos, as palmas. Flutuavam acima dela, tão inteiramente alheias quanto uma estrela-do-mar. Ela sabia o que esperar — já vira Vermelhos muitas vezes, claro, na rua e no vídeo —, mas, mesmo assim, não estava preparada para a visão da sua própria carne modificada. Durante os vinte e seis anos em que estava viva, suas mãos eram de um tom de rosa meio mel, que se escurecia para castanho-dourado, no verão.
Agora, estavam da cor de sangue recém-derramado.”

Dentre os livros que a editora parceira Bertrand Brasil nos apresentou como lançamentos em setembro o que mais me chamou atenção foi esse. A sinopse me deixou muito curiosa.

Mas ela não me preparou para ser tão envolvida na narrativa de Hillary Jordan. Essa distopia (que não envolve adolescentes, UFA) é assustadora não pelos fatos narrados em si, mas pela sua proximidade com a realidade. 

Boa parte da nova leva dos distópicos que vejo por aí parte do pressuposto de situações quase mirabolantes. Não pensem que isso é um demérito aos autores, mas quando alguém cria uma distopia com elementos tão próximos de nós, ela fica muito, mas muito mais assustadora.

A autora nos traz Hannah, uma jovem que vive hoje nos Estados Unidos da América onde não se conhece o conceito de laicidade. Estado e Religião se misturam, as decisões governamentais são tomadas por base em preceitos religiosos. Assim, aqueles que cometem crimes ao serem condenados vão carregar na pele a marca da sua condenação a gradação de cores depende do seu delito. Sim... temos vários elementos de A Letra Escarlate se eu tivesse livro ao livro e não somente visto ao filme poderia fazer mais comparações. 

Hannah foi condenada a ser Vermelha. O crime? Ter abortado. Como não disse quem era o pai da criança (não vou contar o porquê) sofre mais. A passagem pela prisão e por ver realmente como é a vida daquele que se torna um Cromo, ela passa a questionar tudo o que sempre considerou correto.

Como disse no início do texto, a trama de Jordan realmente assusta (e no meu caso revolta) por não estar muito longe de nós. Questões como aborto e laicidade ainda são tabus não só em nosso país, mas em diversos outros. As questões de Estado e de saúde pública são permeadas por preceitos religiosos e a história "Quando Ela Acordou" não deixa de ser um exercício (mesmo fictício) de como as coisas podem ficar se continuarmos seguindo esse caminho. 

Leitura recomendada

Primeiro capítulo AQUI 

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