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09/08/2014

# Editora Sextante # Leituras de Joelma

Paulo Coelho - Adultério - Sextante



Leituras de Joe nº 01

Minha tristeza se tornou rotina, ninguém percebe mais. Não consigo mais dormir direito. Sinto-me egoísta. Continuo tentando impressionar as pessoas como se ainda fosse criança. Choro sozinha e sem motivo no banho. Só fiz amor com vontade mesmo uma vez em muitos meses – e você sabe bem de que dia estou falando. Já considerei que tudo isso seja um rito de passagem, consequência de eu ter passado dos 30 anos, mas essa explicação não basta. Sinto que estou desperdiçando minha vida, que um dia vou olhar para trás e me arrepender de tudo o que fiz. Menos de ter me casado com você e tido nossos lindos filhos. – Mas isso não é o mais importante? Para muitas pessoas, sim. Mas para mim não é o suficiente.

Como seria se sua vida fosse perfeita? A gente sempre tende a buscar essa utopia, mas será que seria realmente tudo que esperamos que seja e a felicidade jorraria sem fim ao nosso redor? Talvez fosse isso que Linda, a protagonista de Adultério, de Paulo Coelho, esperasse. Mas a verdade é que a rotina segura e a estabilidade de uma carreira sólida como jornalista, do casamento com um homem maravilhoso, dos filhos perfeitos e da sociedade funcional e segura Suíça, pareceu se transformar em um grande mundo amorfo, onde não saía do lugar. A personagem de 31 anos parece ter alcançado tudo e sem a perspectiva de novidades no decorrer do caminho, se entrega facilmente à rotina calculada de seus dias.

É somente ao aceitar uma tarefa normal de seu trabalho e reencontrar um antigo amor da adolescência, que Linda enverada pela aventura da traição. É fácil pensar no maniqueísmo natural e julgar Linda como uma adultera. Uma simples vagabunda. É seguro, é prático. Mas Linda ama seu marido, ama seus filhos e isso fica claro no decorrer da trama, e aos poucos vamos compreendendo melhor suas motivações. Entramos como passageiros em suas reflexões, suas ações por vezes impulsivas em busca de uma libertação dos desejos reprimidos.

Para mim, o principal truque deste livro é fazer você pensar. Sair da zona de conforto, onde há apenas luz e sombra, preto e branco. Observando Linda e até mesmo seu companheiro de traição, já que o homem também é casado, vemos os dois lados da mesma moeda ao mesmo tempo e não podemos fugir para o lugar seguro das certezas. A escolha do título me parece uma pegadinha, pois descreve sim a ação principal da personagem, mas também serve como uma atribuição ao modo como muitos de nós levam a vida. Você está traindo a si mesmo? Você leva uma vida dupla entre o desejo e a realidade? A dualidade do ser que nos faz refletir sobre o certo e o errado, e se existem de verdade, o que nos motiva e o que nos torna mecânicos diante de uma sociedade de pensamento conservador, opressor e tacanho.

Há quem ame a rotina e a sensação de controle de todos os aspectos da vida. A estabilidade é base firme para a felicidade? A falta de desafios e turbulências nos faz infelizes? São questões que certamente virão quando você estiver lendo o livro, que indico firmemente, com exceção daqueles que estiverem passando por qualquer tipo de momento sabático, qualquer retorno de saturno, sob o risco de largar tudo e seguir seus desejos e sonhos. Quanto ao final do livro, sobre o que Linda escolhe seguir, pode surpreender muito ou não. Parabenizo Paulo Coelho por um retorno ao que sabe fazer melhor: questionar a natureza humana. Boa leitura.

Um comentário:

  1. Louquinha para comprar e começar a ler esse livro... amo Paulo Coelho, e suas histórias sempre são surpreendentes!!!
    Como seria se sua vida fosse perfeita? A gente sempre tende a buscar essa utopia. Sim utopia, um sonho não realizado - uma esperança muito forte!!!

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